A mão enorme
Dentro da noite, da tempestade,
a nau misteriosa lá vai.
o tempo passa, a maré cresce,
o vento uiva.
A nau misteriosa lá vai.
Acima dela
que mão é essa maior que o mar?
Mão de piloto?
Mão de quem é?
A nau mergulha,
o mar é escuro,
o tempo passa.
Acima da nau
a mão enorme
sangrando está.
A nau lá vai.
O mar transborda,
as terras somem,
caem estrelas.
A nau lá vai.
acima dela
a mão eterna
lá está.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
sábado, 2 de janeiro de 2016
E nem são semelhantes oh nunca dina - Abreu Paxe
Abreu Castelo Vieira dos Paxe é um poeta angolano nascido em 1969, na Província do Uíge. Filho de operário e de mãe doméstica, venceu o concurso "Um Poema para África" em 2000.
e nem são semelhantes oh nunca dina
a face intrínseca cinza o mato porta espessa
o centro da cidade palavras sem cidade
abraço desordenado cenário o beijo exílio
aflora frio fruto feito flor flutuando fechado
corpo refaz-se barbudo estigma centrada pátria
adjetivos aos pares os advérbios sem verbos os nomes
e nem são semelhantes, oh nunca dina
os vestígios antecipadas normas habituada incineração
o povo coincide com a vidraça nasce pequena lembrança
face intrínseco deserto o mato porta espessa
In A Chave no Repouso da Porta, INIC, Luanda, 2003, p.12
e nem são semelhantes oh nunca dina
a face intrínseca cinza o mato porta espessa
o centro da cidade palavras sem cidade
abraço desordenado cenário o beijo exílio
aflora frio fruto feito flor flutuando fechado
corpo refaz-se barbudo estigma centrada pátria
adjetivos aos pares os advérbios sem verbos os nomes
e nem são semelhantes, oh nunca dina
os vestígios antecipadas normas habituada incineração
o povo coincide com a vidraça nasce pequena lembrança
face intrínseco deserto o mato porta espessa
In A Chave no Repouso da Porta, INIC, Luanda, 2003, p.12
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
sábado, 26 de dezembro de 2015
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Lisboa - Sophia de Mello Breyner Andersen
Lisboa
Digo:
«Lisboa»
Quando atravesso — vinda do sul — o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas —
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
— Digo para ver
1977
Digo:
«Lisboa»
Quando atravesso — vinda do sul — o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas —
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
— Digo para ver
1977
In Navegações, 1983
sábado, 19 de dezembro de 2015
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
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